Quando o soil brilha forte, as ondas do mar tocam a areia
como um apaixonado amante toca o rosto de sua dama.
Um breve sorriso invade o rosto de um tão conhecido
personagem, como que em um filme, Leandro olhava o mar naquela manhã fria,
observava apenas, sentia saudade, quem sabe. Tinha em seu rosto, a marca de um
tempo passado, passado, vivido, jamais esquecido, mas envolto em uma saudade
mortal.
Aquele que era o jovem guerreiro tão capaz de acabar com
guerras, levava a paz por onde passava, mesmo que para chegar a paz, o caminho
fosse a guerra, estava beirando os 30 anos, tinha em si um medo, sempre fora
sozinho, após a morte do seu mentor, pai e amigo, coronel vieira, passa então a
viver tão somente do passado, que passava, e passando, passava a incomodar.
Mais de dois metros de altura, corpo levemente trabalhado,
outrora por treinos e treinamentos, agora, pelo tempo, as dores e rancores, não
sorria com facilidade, falava somente o básico, a quem olhava, um morto, vivo,
sem vida, vivendo enfim...
Com armas brancas, era a morte em pessoa, não tinha piedade,
matava para sobreviver, viva para matar, com armas de fogo, era o sinistro
mensageiro que levava a morte quando preciso, erros não eram cometidos, não sentia
medo, não se permitia sentir algo se não a guerra.
Agora solitário, esquecido pela guerra, esquecendo pelo que
lutava, aos poucos, se enclausurava, em sua cidade natal, não falava, não sorria,
não vivia.
Todas as noites, dorme, não sabe se acordaria mais uma vez.
1
Era um dos invernos mais cruéis de todos os tempos, sendo
que jamais pensava-se inclusive em algo maior a se pensar.
Matinhos era uma cidade do litoral do Paraná, brasil,
cidadezinha pacata, banhada pelo mar, com não muitos habitantes, não conhecida além
do fato de ser uma cidade turística, tão somente três meses por ano, chegando a
marca de 200 mil pessoas de passagem aqui.
Aquela tarde não era atípica até então, Leandro sorria pela primeira
vez depois de anos, em uma pescaria abundante a beira mar, sozinho em seus
pensamentos, mas não pensava em nada.
Do mar ouvia-se um barulho que acalmava a alma, ao mesmo
tempo em que onda após onda tocavam o pé de Leandro, que por inúmeras vezes
pulava onda ou outra num gesto de alegria em viver.
Leandro, inúmeras vezes havia salvo algumas vidas, era um
guerreiro nato, treinado para ação, não sentia medo, não conhecia o medo e tão
somente a guerra o satisfazia. A alguns anos no entanto não dava tiro algum, não
guerreava, não tinha também amigo algum, falava vez ou outra com algum vendedor
ou outro, e era só. Não tinha medo da morte, não tinha medo, não até entender o
que é a solidão, o que é estar sozinho em um mundo que ele mesmo ajudou a
salvar inúmeras vezes. Seu nome nada significaria aos inimigos, se é que ainda
vivia algum ser humano que após enfrenta-lo, não acostumava deixar
sobreviventes, e por isso, o premio oferecido pelo Urso era o maior oferecido dentre todos, de
todos os tempos.
O urso, era esse o nome do guerreiro mais eficaz que o
governo brasileiro tivera a sua disposição e ainda, por muitas vezes, a
segurança de paz, ação e reação, guerras eram evitadas quando Urso empreendia
uma guerra particular contra os inimigos.
Naquele instante, o mar que a poucos tocava onda após onda
os pés de Leandro, agora regressava rapidamente deixando atrás de si um lamaçal
de areia e peixes se debatendo, Leandro então, mais que rapidamente embarca em
seu carro e ruma para sua casa.
Pela rua, a calmaria que outrora se mostrava presente, dava
lugar a um histerismo coletivo, um vento sul soprava frio, ao mesmo tempo que
se ouvia vozes e buzinas ao longe.
Em sua casa Leandro liga a tv e em todos os canais uma só
noticia, no mundo todo todos os mares apresentam comportamento estranho, em
alguns lugares chegando a retroceder até 4 km, dando sinais de tsnumi eminente,
no entanto, no mundo todo, seria o fim da humanidade como a conhecemos.
Leandro deita-se em uma rede na varanda de casa, e como quem
está em seu estado mais tranquilo, dorme, sorrindo, dorme.
2
Entao ele acorda, não queria acordar, mas acordou e ao se
levantar, olha para o horizonte e uma luz brilhava, era o sol que surgia como
uma promessa de um novo dia.
Tenta ligar a tv, em vão, somente o estalo seco de um botão
ressecado de um aparelho antigo, se da conta então que não há luz elétrica,
está escuro, apesar do sol nascente, Leandro ainda anda pela casa, por algum
tempo ainda sente-se sozinho, mas a sensação ainda maior o faz tremer, pela
primeira vez algo o fazia sentir medo.
Tenta por alguns minutos ainda, chamar seu cão, Mefisto, em
vão, nem sinal do animal, Leandro entra em seu carro, um jeep modelo antigo, e
sai sem rumo, em busca de um rumo qualquer.
Pela estrada até a cidade, ele ve o sol nascendo, brilhando
ainda mais. Quando adentra por uma rua secundaria, se da conta então da real
situação, a cidade toda devastada, prédios totalmente destruídos, casas e
carros envoltos por lama e umidade, silencio, não se ouvia um cão sequer,
apenas o barulho irrigante de pardais acordando para o novo dia.
Surge então, jogando-se na frente do carro, uma menina, não mais
de 20 anos, toda esfarrapada, parecendo um boneco, espantalho mal cuidado, Leandro
freia bruscamente a tempo de evitar que a moça fosse atropelada.
Ele desce rapidamente, a tempo de ampara-la nos braços e poder vê-la desmaiar com uma mascara de
terror em sua face.
Leandro deita a menina no banco do jeep, ao mesmo tempo que
observa seu rosto contrair, sinal de dor e medo, ela então de súbito desperta,
agarra-se no pescoço de seu salvador e grita por socorro, ao mesmo instante em
que seu rosto se transforma, seus olhos se esbugalham até que por fim a mulher
cai novamente, sem vida, completamente desfigurada.
O Urso da um salto para longe do corpo, tenta por a cabeça
no lugar, sorri ao mesmo tempo em que olha ao redor, sorri em sinal de
nervosismo, não estava acostumado a sentir medo, nervosismo, mas agora tudo se
envolvia em sua mente, ao contrario do que estava acostumado, não sabia o que
se passava ao seu redor.
Colocando as idéias no lugar, ele observa o corpo sem vida,
retira do carro com cuidado, se da conta então uma grande mordida no braço
direito da menina, faltando carne, provavelmente ação de algum animal de grande
porte.
Não importando-se para o que via, ele deixa ela de lado e
começa a olhar ao redor, o sol já estava alto, e não havia viva alma, nem sinal
dos habitantes locais, cães mortos, já tocados pelo sol forte, começavam a dar
um ar intragável, ao mesmo tempo em que, conforme andava, alguns corpos humanos
estirados em meio a lama e destroços de carros e casas.
Leandro então, solitário, medo brilhando em sua alma, abre
os braços e grite como toda a força de seu corpo:
- alguém pode me ouvir, alguém vivo?
Em vão.
Adentra em uma casa, outra, não há sobreviventes, ele então
caminha pela rua, sem prestar atenção, quando é atingido na cabeça, cai
desacordado.
3
Quando recobra os sentidos, seus olhos pesadamente abrem,
são obrigados a fechar rapidamente, a claridade
ofuscam a visão, apertando os olhos, até acostumar-se com a claridade,
ele só então se da conta de que está amarrado em uma cama de ferro. Tenta soltar-se
por algum tempo, em vão.
O que mexia com Leandro, na verdade, era o silencio que
cortava, atingia o sistema nervoso de forma cruel, o jovem ainda por algum
tempo se debate, mas chega a conclusão que o esforço era em vão.
Então a porta abre, um jovem, não mais de 18 anos adentra na
sala, observando Leandro que agora não se debatia, o jovem olha por alguns
instantes, até que Leandro fala:
- quem é você, o que quer comigo?
O jovem de cabelos loiros, pouco mais de 1,80 m de altura,
olhos claros e um porte físico comum, após olhar por algum tempo para Leandro,
sorri e diz:
- de onde vem?
- não entendo, o que você quer dizer ?
- você tem um carro, roupas limpas, por onde andou
forasteiro?
- moro perto daqui, não entendo, o que houve?
- o mundo acabou irmão, não há seres humanos, não há vida, não
há mais nada...
- mas...
- foi tudo tão rápido, e ...
Nisso a porta se rompe, uma dezena de homens, corpos
destroçados, rostos desfigurados, avançam, o jovem então saca de uma arma e
atira, os primeiros caem, mas são muitos,
Leandro começa a se debater aos primeiros tiros, a morte
eminente o faz a se debater com toda sua força, um braço solta-se, rapidamente
ele saca de uma adaga presa junto ao sinto, solta-se rapidamente e segundos
depois já está em pé, matando mais uma vez.
Ao mesmo tempo em que limpa o rosto coberto por uma massa
fétida e gosmenta, Leandro olha para o companheiro, seu olhar clama por
resposta.