sexta-feira, 24 de junho de 2011

Mais um dia comum de trabalho



No que a porta se fecha, não sei bem se aquilo era um choro, ou um suspiro de alivio ao ver a chave girar ao mesmo tempo que ouvia-se o barulho de alguém se encostando a porta ao mesmo tempo que deslizava de costas colada a porta, até o chão.
José era um menino de sorriso firme, talvez sorrisse mais do que o comum, não entendiam o porque algumas vezes ele sorria tanto, uma vez que, sua vida a tempos não era mais a vida perfeita que tivera outrora, do menino sorridente e feliz, talvez restasse apenas o sorriso constante, apesar da vida, isso José não perdia, exceto quando se trancava no quarto e ali, no silencio e escuridão daquele pequeno cômodo, que ele deixava de lado a força que mantinha, e chorava, chorava em demasiado desespero, muitas vezes ouvido pelos demais moradores de pequena casa, uma angustia tomava conta de todos, quando nas noites de chuva, aquele cena se repetia.
Mas aquela noite tudo estava diferente, José se trancara no quarto, mas não estava chorando, de sua boca apenas se via um sorriso indecifrável, talvez pudesse ver ali uma ponta de satisfação, tinha na face a demência que os loucos carregam em si, mas não era louco, tão levava consigo marcas dessa loucura, que evidencia-se algo em seu caráter.
Depois da morte trágica de sua mãe, encontrada morta ali mesmo naquela casa, numa noite de chuva que marcava no calendário 26 de janeiro de 2007, José havia se tornado amargo nos seus gestos, apesar de manter o sorriso, quem o conhecia e os poucos de seu circulo de convivência, afirmavam que ele se tornara amargo, triste coma  vida, poucas palavras, e na maioria do tempo olhando o vazio, olhava o nada e se apegava talvez em lembranças, essas na certa, causadoras dos sorrisos intermináveis na face do jovem.
De repente, a porta treme ao mesmo tempo que se ouve a batida seca na madeira, alguém esmurrava a mesma com força, chamando, e esmurrando, num frenesi assustador, quase que automática, os sons dos socos e dos berros se confundiam na mente de José que nem dava a devida importância, ao mesmo tempo que o som penetrava em sua mente, se perdia em meio a mil outros pensamentos que povoavam sua cabeça e o olhar vazio se perdia pela janela que balançava fracamente uma cortina velha e amarelada.
E as batidas cada vez mais fortes e assustadoras iam pouco a pouco enfraquecendo a porta já antiga e desgastada, que agora só era segura pelas costas de José que se mantinha alienado aquilo ao mesmo tempo que mantinha o olhar perdido ao vento frio e fraco que teimava em balançar a cortina, nisso a chuva para de imediato ao mesmo tempo que a lua sai de traz de uma nuvem, o céu fica limpo parcialmente ao mesmo tempo, a porta é chutada com violência, jogando José desacordado a frente em meio a uma possa de sangue.

O local era amplo, porem escuro e úmido, sentia-se ali um cheiro de mofo de impregnar as narinas de quem respirasse aquele ar, a luz que poluía o lugar, era de uma fraca e escondida lua que vez ou outra dava seu ar da graça, fazendo o lugar mais iluminado, ao mesmo tempo que evidenciava ainda mais o aspecto ruim do ambiente. José recobrava lentamente os sentidos, seus olhos ainda pesava, e na boca o gosto amargo, tivera horas apagado, ou não mais do que minutos, sua vista embaçada ainda se acostumava com o ambiente, que pouco a pouco ia tomando forma, ao mesmo tempo que duas formas humanas também se mostravam aos olhos do Jovem, que ao tentar levantar-se, constatou que estava preso, pés e mãos, amarrados com alguma corda ou tecido, evitavam que o mesmo levantasse ou ainda tentasse esboçar alguma possível reação, José então olhava ao redor, ao mesmo tempo que era observado pelos olhares atentos dos dois homens que observavam meticulosamente aquela cena.
Agora a lua iluminava fortemente o ambiente, e José sentia conhecer aquele lugar, sim estava na sala da sua própria casa, ao mesmo tempo passou a olhar a face dos dois homens que o observavam, o mais alto era o delegado da cidade, doutor Casa Nova,  e mais baixo e gordo, era seu assistente Aristóteles, Casa Nova e José troca um olhar breve ao mesmo tempo que o delegado da uma coronhada na da face do perturbado menino dizendo:
- onde eles estão, vamos diga.
Como não obtém resposta, o delegado agride ferozmente o jovem que não esboça nenhuma reação, seus olhos ainda buscam a lua ao mesmo tempo que em sua face um sorriso nasce, como que dando boas vindas a lua que brilhava naquele momento com maior intensidade que o normal, mas as agressões não cessavam por um segundo, um grito, onde eles estão, sem respostas obviamente, e se seguia uma coronhada ainda mais forte, ao mesmo tempo que desfigurava pouco a pouco a face do atordoado José.
Nisso Aristóteles olhando aquilo em silencio, resolve tentar intervir e fala:
- Doutor, acho que ele não sabe de nada, o senhor vai acabar matando esse jovem, sem conseguir arrancar nada dele, parece alienado a tudo...
- cale-se, recebemos uma denuncia que esse animal tinha matado todo sua família...
- Mas pode ser mentira, pode ser uma denuncia falsa.
- se assim fosse, porque ele teria fugido de nós ou ainda se trancado naquele quarto.
- deve haver uma explicação doutor e...
- Pense bem idiota, a dois dias não vemos seu pai ou seus irmãos mais novos...
- ...
E com olhar de desdém ao outro, Casa Nova reinicia a serie de socos e coronhadas, fazendo dessa vez, o jovem desacordar, em seguida após ser reanimado com a água de um vaso de flores, José Já meio sem vida, mal consegue manter os olhos abertos, ao mesmo tempo que não lhe é dado trégua, na busca insaciável  por uma resposta.
Nesse instante, dando um ultimo e sofrido suspiro José aponta para a janela ao mesmo tempo que sua cabeça pende de lado, e o corpo pesa, já sem vida, os dois homens da lei, olham em seguida para onde apontara o jovem, e vêem a lua ser encoberta por uma nuvem escura, trazendo chuva e uma série de raios que caem do céu fazendo um barulho infernal, nesse instante, antes mesmo que os dois se dêem conta, um raio cai sobre a casa  ao mesmo tempo que toca a cortina fazendo em segundos iniciar-se um fogo, que, alimentado por uma casa de madeira velha, se torna questão de segundos pra se tornar um inferno em chamas.

Os dois homens rapidamente saem da casa sem deixar sinais de sua estada, deixando ali, o corpo do pobre José sem vida, e em pouco tempo, a casa está toda em chamas, vizinhos e curiosos chegam simultaneamente ao carro de bombeiros que acaba de acordar toda a vizinhança com todo seu barulho de sirena.
Mas nem bombeiros nem demais pessoas podem fazer nada, a casa em pouco tempo não passa de um amontoado de cinzas e chamas, terminado seu trabalho, os bombeiros deixam o local, sendo lentamente imitado pelos curiosos, deixando pouco depois o local vazio, conservando um silencio amedrontador e sinistro, ao mesmo tempo que a chuva cai, apagando definitivamente aquele fogo.
Na manhã seguinte, na delegacia de policia, o pai e os dois irmãos de José estão na sala do delegado, acompanhados do chefe dos bombeiros e uns 3 ou 4 jornalistas, o pai relata sua historia:

- Desde a morte de minha esposa que José vive em seu próprio mundo, apesar de boa convivência, se tornava amargo, triste, sua mãe fora assassinada anos antes, e a cena não saia de sua mente, e assim , todas as noites de chuva, ele se trancava em seu quarto e chorava, até o dia amanhecer, ele dizia que um dia a lua o levaria até sua mãe. Eu tive que ir a cidade vizinha, meus filhos mais novos precisavam de tratamento medico, e não havia como levar José junto, foi então que decidi deixá-lo sozinho...

-isso foi uma irresponsabilidade, amigo, sabendo das necessidades de seu filho...
- eu sei, José nunca fez mais do que chorar, sofrer a perda da mãe, enfim, antes de partir adverti o menino de que fugisse de qualquer pessoa que entrasse na casa, alias era isso que ele geralmente fazia, fugia e se trancava no quarto, e todas as noites de chuva, meu filho, como que saia do ar, ficava ainda mais trancado em seu mundo, olhava a lua, talvez acreditando que ela viria lhe buscar...

Nisso o delegado e seu assistente se entreolham, ao mesmo tempo em que o representante da lei olhando amplamente pela sala fala:
- como se trata de um acidente,  podemos dar esse caso como encerrado?

Todos aprovam a idéia do delegado, que senta-se em seguida ao mesmo tempo que sorve um largo gole de café quente, sorri satisfeito, tudo havia acabado bem...

Leandro Tavares

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