segunda-feira, 18 de abril de 2011

vovo de ganga


Sou Matinhense, nascido, criado e desmamado aqui na terra onde meus pais, avós, bisavós foram na mesma linha, nascidos, criados e desmamados, digamos que somos hoje patrimônio natural da cidade, todas as minhas historias, todas as minhas angustias, sonhos, desejos e medos, aqui foram passados, vou contar um ocorrido de minha infância que ainda hoje povoa minha mente, e meus pensamentos.
Somos em 3 irmãos, homens, diferença de idade, do mais velho pra mim, 3 anos e de mim ao mais novo um ano, resumindo, quando criança, sempre fomos meio que parelho, nas brincadeiras,  jogos e demais atividades que compete a crianças, lembrando que vivemos a geração dos anos 90, felizes dos que como nós, viveram essa infância.
Morávamos numa casa no bairro Rio da Onça, nome dado ao rio que corta o bairro e diziam as línguas que nos tempos antigos, as onças saciavam a cede nas águas escuras do rio, uma casa grande, me recordo como que fosse agora, na varanda, no lugar de uma das pilastras, nosso pai, talvez por falta de recursos, ou mesmo pela ânsia louca de fazer as coisas ao modo dele, havia colocado uma forquilha, então nossa varanda era sustentada por uma grande forquilha que imaginávamos ser a cetra de um gigante qualquer.
Nosso pai, motorista, viajava pra lugares distantes, ficava dias e até mesmo semanas fora, e era com minha mãe que íamos os 3 ainda muito pequenos, ao bar chamado casa grande telefonar ao nosso pai, essa cena ainda me povoa a memória, e as lagrimas caem da mesma forma que caiam quando ouvíamos a voz, que suavemente dizia, o pai sente saudades de vocês.
E assim passávamos os dias, durante o reinado do sol, brincávamos, corríamos, éramos felizes e nem nos dávamos conta que nosso pai estava distante, mas quando a noite caia, falo por mim, mas o medo me consumia, não me sentia seguro sem a figura do meu pai pra nos proteger de qualquer perigo.
Numa dessas noites, enquanto na certa assistíamos ao carrossel, ouvimos nas paredes de madeira, batidas estrondosas que faziam tremer a casa, ou quem sabe isso tenha sido algo da minha imaginação, fato é que ao ouvirmos aquilo, nos entre olhamos, ao mesmo tempo que mamãe chegava a sala, todos em transe, fazíamos silencio, na vã esperança que aquilo fosse fruto da nossa imaginação fértil, porem, instante seguinte novas bordoadas na parede e já ouvi meu irmão mais novo chorar apavorado ao mesmo tempo que minha mãe, forte e segura de si e de seus medos pergunta: “quem ta aí?” e a resposta veio instantaneamente: Vovô de Ganga!”
Tínhamos medo, todos na verdade estávamos apavorados, minha mãe procurava por algo sobre o guarda roupas, no intuito de defender seus filhos, nisso o barulho recomeçava, e tomávamos coragem, e um de nos perguntava, quem ta ai? E a resposta era a mesma, vovô de ganga.
Depois de algum tempo, foram minutos de terror, ouvimos algumas vozes, espiamos pela fresta da janela e podemos ver alguns homens carregando um senhor, bêbado que andava sofregamente amparado por braços amigos, ninguém la em casa naquela noite dormiu normalmente, ficamos todos no mais profundo silencio, talvez ainda apavorados, na incerteza se aquele homem voltaria, com aquele pavor que toda criança tem, aquele receio que nos invade.
Anos depois, nos mudamos daquela casa, do vovô de ganga uma vaga lembrança, alem de uma blusa que ficou no nosso quintal, daquela casa, ainda sinto uma saudade que nem sei explicar, hoje não há mais a forquilha, nem há mais vestígios da nossa estada ali, porem ainda hoje procuro olhar aquelas pares, na vã esperança de encontrar quem sabe, vestígios da minha tão feliz infância, ainda choro, fui criança feliz, e agradeço a Deus por ter sido o que fui, e me transformado no que sou...

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